22.1.09

 

Teorias Psicológicas da Aprendizagem
 
Neo-Behavioristas versus Construtivistas
 
 
    Para entender melhor uma prática de avaliação inserida, quer num plano concreto (ao nível da sala de aula), quer num mais abrangente (no sistema educativo), necessitamos, muitas vezes, de um conhecimento acerca das concepções que sustentam a aprendizagem.
    Como refere Fernandes “há quase uma relação causa-efeito entre o que pensamos ou o que sabemos, acerca das formas como os alunos aprendem e as formas como avaliamos as suas aprendizagens”. ( Fernandes,2005:24).
    Neste sentido, iremos conceptualizar a aprendizagem, através de dois autores pertencentes a duas teorias psicopedagógicas que marcaram o século XX: Neo-behaviorismo (Skinner) e Cognitivismo (Bruner).
    A aprendizagem é um conceito basilar, tanto na Psicologia como na Pedagogia, envolvendo várias variáveis que se combinam de diversas formas, estando, ainda, sujeita a factores internos e externos, individuais e sociais.
    Ao longo do tempo foram vários os psicólogos e pedagogos que pesquisaram a aprendizagem e desenvolveram teorias científicas a esse respeito. Assim, apareceram, entre outras, duas teorias conceptuais sobre a aprendizagem: O Neo-behaviorismo protagonizado por Skinner e o construtivismo social representado por Bruner. Tanto Skinner como Bruner discutem temas da aprendizagem que são de importância prática para o professor no contexto da sala de aula.
    Todavia, “quiça” fruto de uma base de trabalho- a teoria de Skinner resulta principalmente de trabalhos com animais; os dados de Bruner têm origem em observações de crianças em situações de aprendizagem-, temos concepções diferentes sobre a aprendizagem.
    Assim, o Neo-behaviorismo, teoria descritiva, coloca acento sobre a dimensão quantitativa dos saberes. Daí o parcelamento dos conteúdos e das tarefas de aprendizagem, tal como a hierarquização dos conhecimentos a adquirir numa sequência linear e cumulativa, muitas vezes sem visão de conjunto.
Ao contrário, na aprendizagem dependente de processos cognitivos, é prescrito, antecipadamente, a melhor forma de guiar o aluno a discernir a natureza de um assunto, entendendo-o como um sistema ou estrutura para a sua compreensão. A este propósito, Abrantes refere que compreender é “dar sentido e saber usar o que se aprende” (Abrantes,2001:26) 
    Skinner (1904-1990) , professor e investigador de Psicologia, interessou-se pelo estudo do comportamento animal com aplicações à conduta humana, onde, nas palavras de Sprinthall “O meio - e só o meio -controla o nosso comportamento” (Sprinthall,1993:233).
    Com efeito, inspirado no behaviorismo clássico idealizado por Watson, na reflexologia de Pavlov e apoiado nos trabalhos de Thorndike, criou a moderna teoria comportamentalista da aprendizagem (neobehaviorismo). De acordo com esta teoria, a aprendizagem é o resultado dos efeitos que os estímulos ambientais provocam nas respostas dos sujeitos, os quais actuam como reforço de uma conduta.
    Para o efeito, de acordo com Sprinthall, Skinner distingue as respostas em duas categorias: “operantes (respostas que não necessitam de qualquer estímulo para serem desencadeadas) e respondentes (respostas que precisam de um estímulo incondicionado a fim de serem activadas)”(Sprinthall,1993:244).
    Trata-se , portanto, de uma teoria que se interessa pelo resultado da aprendizagem, através do estudo das respostas das pessoas ao ambiente, passíveis de observação e medida.
    O modelo Neobehaviorista de Skinner interessou-se, também, pelos processos de retenção e transferência da informação. A retenção pode ser melhorada através do aumento e da variedade de estímulos associados a uma resposta particular. A transferência é influenciada criticamente pela semelhança entre a tarefa apreendida e a tarefa para a qual a transferência é feita. Tanto uma como a outra constituem meios para que o aluno progrida na aprendizagem de objectivos pré-estabelecidos.
    Numa aprendizagem assente em associações entre estímulos e respostas, no desejo de uma objectividade científica alicerçada num empirismo lógico, na identificação do indivíduo como “tábua rasa” , conduz a um modelo pedagógico onde o aluno tem um papel passivo e o professor converte-se num executor de objectivos prescritos.
    Ao impor uma aprendizagem exclusivamente dependente do ambiente/meio, Skinner induz ao conceito de aprendizagem operante, a qual se baseia, essencialmente, no conceito da administração de reforços positivos.“ O reforço, como todos os conceitos de Skinner, é defendido estritamente em termos operacionais, isto é, em termos do modo como é observado ou medido.” (Sprinthall e Sprinthall, 1993:226).
    Por exemplo, a frequência de uma conduta aumenta quando acompanhada de reforços positivos, isto é, ao identificar uma resposta que se deseja, devemos reforçar o indivíduo cada vez que a exibe.
    Todavia, o condutivismo protagonizado por Skinner sofre hoje um sem fim de críticas: fundamentalmente critica-se hoje o deixar de lado o mais genuíno da dimensão psicológica do homem, isto é, as estruturas e os processos cognitivos. Torna-se evidente que reduzir a Psicologia humana a uma análise de estímulos e respostas é um esquema demasiado estreito para a grandeza da questão. Por isso, este modelo sofreu críticas e daí, também, o surgimento de outro representante contemporâneo da escola cognitivista-gestaltista, associado mais ao conhecimento da mente e da conduta humana.
    Bruner nasceu em 1915 e é um dos expoentes do cognitivismo e, em particular, do Construtivismo. A Teoria protagonizada por Bruner , a que chamou de instrução, irrompeu nos anos 60, quando se começa a falar da necessidade de ensinar aos alunos o processo da sua própria aprendizagem, “ensinar a aprender”. A este propósito, Netto refere que “ Aprendizagem e ensino são processos intimamente ligados entre si, como as duas faces de uma moeda” (Netto,1987:1).
    Bruner apelida a sua teoria de evolucionista, onde acentua o carácter contextual da aprendizagem. Isto é, incorpora alguns aspectos da teoria de Piaget referente ao desenvolvimento cognitivo, mas acrescenta outros factores importantes como, por exemplo, o contexto cultural onde se realiza a aprendizagem, daí que seja conotado de “culturalista”, e também o papel da linguagem no processo de desenvolvimento.
    A linguagem funciona como uma ferramenta intelectual e proporciona o pensamento, dependendo, deste modo, este da primeira. Porém e ao mesmo tempo, o pensamento interage com a linguagem numa construção recíproca. Nesta perspectiva, a criança, ao ter acesso à linguagem e ao seu significado colectivo, elabora os seus universos conceptuais, de acordo com as estruturas lógicas da comunidade em que se encontra inserida.
    Assim, esta corrente psicopedagógica acentua o papel da cultura na formação da nossa linguagem e dos nossos pensamentos.
    A teoria de Bruner assenta em quatro princípios fundamentais: motivação intrínseca, estrutura, sequência e o reforço. A motivação inclui, a curiosidade, o impulso para a competência e reciprocidade; a estrutura depende da economia e modo de apresentação ( motora, icónica e simbólica) e do poder da apresentação: simples e facilmente compreensível; a sequência implica respeitar os estádios do desenvolvimento; o reforço deve funcionar como “feedback”, oportuno e compreendido pelo aluno.
    Estes quatro princípios têm com o objectivo produzir uma aprendizagem por descoberta/significativa, guiada e conduzir ao pensamento indutivo.
Neste contexto, deve-se promover a compreensão geral da estrutura de uma matéria por forma a relacionar com outros assuntos, bem como envolver os alunos no processo da descoberta dos conhecimentos. No entanto, ensinar através da descoberta não é tarefa fácil pois implica que “ O professor tem de ser vivo e flexível e tem de conhecer realmente a matéria” (Sprinthall e Sprinthall, 1999:243).
    Em síntese, de acordo com a teoria neo-behaviorista, a aprendizagem é considerada como um processo linear, um acumular de conhecimentos, realizando-se na medida em que se passa progressivamente de conhecimentos mais simples para os mais complexos. A definição estruturada de objectivos cada vez mais complexos para o aluno progredir na aprendizagem, conduziu à introdução da noção de pré-requisito como capacidade já adquirida e fundamental para a aquisição da aprendizagem seguinte. Uma vez que os objectivos são definidos em termos comportamentais, toda a aprendizagem se encontra orientada para o atingir dos resultados/produtos, em detrimento dos processos.
    Ao contrário, a aprendizagem surge-nos, numa perspectiva construtivista, como um processo activo, interactivo e contínuo do próprio sujeito, utilizando este as suas experiências e conhecimentos prévios em situações novas, construindo, progressivamente, sozinho ou com a ajuda do outro e/ou de acordo com os ambientes/contextos, os seus próprios conhecimentos. Neste sentido, a aprendizagem é diferenciada e individualizada.
    Após a análise destas concepções, penso que as duas são importantes na aprendizagem dos alunos, desde que inspirem metodologias conducentes à motivação para aprender e partilhar com sentido de equilíbrio, tendo em conta os interesses de todos os elementos da comunidade educativa.
    Na avaliação de alunos, nos currículos, na relação professor-aluno, somos muitas vezes “obrigados” a utilizar pontes entre estas duas correntes.
    Por exemplo, podemos encontrar aplicações da teoria de Skinner, quando queremos fortalecer a auto-confiança em pessoas excessivamente tímidas. Isto é , no campo educativo, um professor que conheça as técnicas de condicionamento operante pode ajudar os alunos a vencer a sua timidez, adquirindo uma conduta mais activa na aula. Basta, por exemplo, que aprove de algum modo a conduta de um aluno para que esta aumente as probabilidades de repetir-se.
    Contudo, nas palavras de Marques, “(...) este modelo pode ser útil na aprendizagem de certas tarefas, mas não de outras” (Marques,1999:31). Daí, a importância da teoria de Bruner, onde um dos objectivos essenciais é promover a compreensão geral da estrutura da matéria. Por exemplo, quando um professor de Matemática pretende ensinar alguns conceitos mais elaborados de Álgebra, tem forçosamente que os relacionar de uma forma global com outros tipos de linguagem, isto é, o aluno ao compreender a estrutura de um assunto, vê-a de um ângulo que muitas outras coisas se relacionam significativamente com esse assunto.
    Num último parágrafo, diremos que, a Teoria de Skinner está mais apropriada na aprendizagem de factos simples, com recurso à memorização e/ou descrição de conceitos isolados; por seu lado, a Teoria de Bruner insere-se em formas de aprendizagem mais complexas, nas quais a reorganização de percepções, a compreensão de relações significativas e o conhecimento são críticos, muito mais do que o estabelecimento de associações entre estímulo e resposta.
    Numa frase, enquanto Skinner preocupou-se com o condicionamento de factos isolados, Bruner envolve o aprendiz a dar sentido aos factos, quer no contexto em que ocorrem, quer ao relacionamento com outros já existentes.
 
 
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